sábado, 16 de março de 2013

TODOS OS DIAS, SOB TODOS OS PONTOS DE VISTA, VOU CADA VEZ MELHOR!


Jamais esquecerei esta cena: mamãe de pé, junto á mesa do café da manhã, com densas lágrimas a escorrer-lhe do rosto, porque Omar Cardoso havia morrido.  Os mais jovens talvez não se lembrem, mas Omar Cardoso, o astrólogo,  visitava os lares brasileiros todas as manhãs, e começava seu programa dizendo: “Todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor”.  Pena que não possa reproduzir aqui a entonação firme e musical dessa fala: na palavra vou, Omar fazia uma “onda sonora” e subia um tom, ênfase que buscava convencer quantos o ouviam da verdade de sua afirmação.

Jamais esqueci a frase que Omar dizia antes do meu signo, sempre com aquela voz tonitroante:  “e agora, o mais poderoso de todos os signos: leão!”.

  Essa recordação me fez refletir sobre o poder das pessoas que nunca vimos pessoalmente, com as quais nunca trocamos sequer uma palavra, mas que entram em nossas vidas a ponto de nos arrancar lágrimas quando de sua morte; preocupação quando estão doentes, tristeza quando algo ruim lhes acontece.
Eduardohumberto.blogspot.com
 Lembro-me com detalhes do momento em que ouvi a notícia da morte de Elis Regina: eu estava sentada diante da TV, numa poltrona azul de listrinhas e era por volta do meio dia. Algumas cenas do enterro ficaram gravadas na minha memória: pessoas empoleiradas na copa das árvores, Lene Dale chorando  desvairadamente.  Também chorei e, pelo resto da vida, hei de lamentar essa perda.  Anos depois, ficaria comovida ao ouvir pela primeira vez a voz de Maria Rita cantando com Mílton Nascimento.
maisculturabrasileira.blogspot.com






Omar Cardoso, ao repetir seu texto, trazia alento diário para os ouvintes.  Naquela época, em que nem se falava de autoajuda no Brasil, ele tinha essa prática, talvez intuitiva, de estimular as pessoas fazendo-as reafirmar-se positivamente.  Elis encantava a todos com sua interpretação dramática e técnica perfeita, gerando empatia em quantos a ouvissem.

Sempre ouvimos narrativas de atores sobre as cenas que protagonizaram fora da telinha, com pessoas que ficam tão convencidas com o que veem nas novelas, que chegam a extremos entre xingar e dar conselhos aos personagens, confundindo-os com os atores.   

Esse evento se explica pelo funcionamento do cérebro humano: ao assistir a um filme ou novela, nosso lado racional sabe que nada daquilo é real, que há inúmeros técnicos em volta dos atores, mas, a área dp cérebro responsável pela imaginação acredita naquilo que vê, para sorte da  indústria do entretenimento. 
orkut.com
 Além disso, não se pode negar que nossas emissoras de TV  são praticamente perfeitas no quesito simulação da realidade.  Na  novela “Mulheres Apaixonadas”, de Manuel Carlos,  a personagem da atriz Vanessa Gerbelli morre durante um assalto.  Depois, realidade e ficção se misturam quando os personagens de Tony Ramos e Bruna Marquezine participam de uma passeata pela paz, acontecida na vida real.

 Assim, sofremos as mais diversas influências: de locutores de rádio e TV, atores, cantores, apresentadores.  O que nos cabe fazer diante dessa realidade?  Creio que precisamos filtrar, passar tudo por uma peneira fina e decidir o que nos serve e o que não.  

Pelo menos daquilo que é consciente.  É importante estar sempre atento, principalmente para o que veem as nossas crianças e adolescentes.  E termos cuidado até com nossos sentimentos e sensações.   A empatia é saudável, assim como o sentimento de solidariedade, desde que colocados sob a perspectiva da realidade e do equilíbrio.  




 

2 comentários:

  1. Nossa! Fiquei emocionada com seu texto, principalmente o começo, pois minha mãe também ouvia o Omar Cardoso e repassou essa frase para mim e minha irmã "“Todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor".
    E hoje estava tentando lembrar onde ela havia escutado isso, e me deparei com seu blog. Fique feliz!

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